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Comunidade católica reage a mudança de nome do Aeroporto de Goiânia

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O Senado aprovou na terça-feira (23) a proposta que altera o nome do Aeroporto Internacional Santa Genoveva em Goiânia para Aeroporto Internacional Iris Rezende Machado. O projeto é de autoria do senador Luiz do Carlos do Carmo (MDB) e recebeu parecer favorável pela aprovação do também senador goiano Vanderlan Cardoso (PSD). Ambos os políticos são evangélicos. O texto segue agora para votação na Câmara dos Deputados com reação negativa entre os católicos. O jornal Diário do Estado ouviu lideranças políticas e religiosas sobre o assunto.

O projeto elaborado pelo mdbista Luiz do Carmo possui apenas quatro páginas e consta alguns erros, como a grafia do próprio nome sujeito a alteração, já que Iris não possui acento na letra “i” e também ao fato de que o ex-governador de Goiás, Iris Rezende, não começou sua vida política no PSD, conforme escrito. Sua trajetória inicia no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

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A vereadora por Goiânia, Gabriela Rodart (DC) não concorda com a alteração. Segundo a parlamentar, o nome de outros logradouros públicos, como o Teatro Municipal ou o Centro de Convenções, poderia ter sido alterado no lugar do Aeroporto Internacional de Goiânia Santa Genoveva. “Embora Íris Rezende tenha o meu profundo respeito e admiração, e eu acredite que ele deva ser, sim, devidamente homenageado em nossa capital, a dignidade dos santos é maior que a dos grandes políticos”, afirmou Rodart.

O Pe. Bráulio Martins, da Arquidiocese de Goiânia, mantém a mesma opinião da vereadora “É preciso preservar e reafirmar a memória de quem doou, de homenagem à Santa Genoveva. Existem outros locais em Goiânia que podem carregar o nome de Iris Rezende, como por exemplo os novos viadutos que estão sendo entregues”, diz.

Mãe de Iris Rezende carregava nome do aeroporto e também se chamava Genoveva

O Pe. Rodrigo de Castro, da Paroquia Sagrada Família, acredita que esse não é o melhor caminho para uma homenagem a Iris “São três pontos que precisamos considerar: em nossos encontros, o Iris sempre levou muito a sério a história de Goiás, era algo que ele gostava de valorizar e ele contava a história do estado em todas as ocasiões em que estivemos juntos. Ele era cuidadoso com isso, com a nossa amizade e com o cuidado dele com as coisas da Igreja, os valores históricos. Eu afirmo que isso não agradaria a ele”, disse.

O Pe. Rodrigo, continua, referindo-se ao fato, já mencionado anteriormente, de preservação da memória de quem doou o terreno e, ao que ele considera o mais importante de todos “A mãe do Iris se chama Genoveva, dona Genoveva Rezende Machado… Você acha que ele ia querer se desfazer disso?”, afirma.

Fachada do Aeroporto de Goiânia Santa Genoveva
A mudança do nome do Aeroporto Santa Genoveva vai além da política; religiosos dividem opiniões e homenagem encontra caminho para apagar nomes católicos (Foto: Johann Germano/Sagres On)

Mudança de nome tem religião no meio

Outra coisa que chama atenção é o fato da proposta retirar um nome já comum para a cidade e, ligado a Igreja Católica, partir de um político da Igreja Assembleia de Deus. O senador Luiz Carlos do Carmo é protestante da Assembleia de Deus há mais de 30 anos e é irmão do bispo Oides José do Carmo, o líder da Assembleia em Goiânia desde o início dos anos 2000 e presidente da Convenção Estadual dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus de Goiás.

O relator do seu projeto também não poderia ser outro, afinal, Vanderlan Cardoso é um evangélico implacável, o que deu sinal verde para a proposta logo de imediato.

Terreno para construção do aeroporto foi doado com a condição de se chamar Santa Genoveva

O Aeroporto Santa Genoveva foi inaugurado em Goiânia no dia 05 de setembro de 1955, quando a própria cidade ainda havia acabado de nascer. Ele é o principal aeroporto do estado e está localizado no Bairro Santa Genoveva, região norte da capital.

Antes do Aeroporto Santa Genoveva, a cidade contava com um outro local para pousos e decolagens de voos. Entre as décadas de 1930 e 1950, o aeroporto de Goiânia estava localizado no que hoje conhecemos como Praça do Avião, no Setor Aeroporto. No início, o aeroporto era um espetáculo para a recém nascida população goianiense, mas com o passar dos anos, as aeronaves aumentaram de tamanho e a quantidade de voos chegando em Goiânia também; com isso, consequentemente, começaram a reclamação dos barulhos. Foi aí então que começou a discussão para a transferência do aeroporto para uma região que fosse mais afastada do centro da cidade.

Não é possível falar sobre o Aeroporto Internacional de Goiânia – Santa Genoveva sem falar de um personagem importante dessa história, o Dr. Altamiro de Moura Pacheco. Ele nasceu em Bela Vista e veio para Goiânia ainda no início da cidade, na década de 1930. Dono de grandes terras, ele doou 100 lotes para instituições de caridade e outros 904 para a construção do aeroporto na região norte da cidade.

Mas a doação do terreno para o aeroporto existiu sob uma condição: o local deveria carregar um nome especial, Santa Genoveva. A mãe do Dr. Altamiro se chamava Maria Genoveva de Moura Pacheco e ela também era devota da santa de mesmo nome. Tanto o aeroporto quanto o bairro, foram denominados dessa forma como uma homenagem à mãe de quem fez todas as doações.

Dar nome de político em aeroporto “virou moda”

De acordo com o historiador Tiago Zancope, “A doação veio com uma condição. Acho que não é o ideal você desagradar. Ao meu ver é querer tirar a roupa de um santo e vestir em outro” – fazendo referência a Iris Rezende. Para Zancope, a melhor homenagem que poderia ser feita é a mudança do nome da Av. Anhanguera, no Centro “A Av. Anhanguera é emblemática. Ela poderia ser a Avenida Iris Rezende. Ela é um corredor estruturante, o primeiro BRT da cidade e conecta regiões”, diz.

Ainda, segundo Zancope, há uma “memória em disputa”, o que reforça que o melhor caminho seja a mudança do nome da avenida que homenageia os bandeirantes “Essa memória é sempre criticada e debatida. É uma memória que de alguma maneira promove um ressentimento pelo genocídio indígena, pela forma como eles foram escravizados e mortos”, afirma.

Durante a entrevista, Tiago reforça que não é contra a homenagem, “muito pelo contrário”, mas que deveria ter sido escolhido outro local “A Av. Anhanguera possui um grande fluxo de pessoas, ali o nome ia pegar. Iris merece todas as homenagens pois ele foi o maior político de Goiás, mas o aeroporto é uma má escolha”, diz.

Ele comenta ainda sobre nomear aeroporto com nome de ex-governadores como uma “moda”, citando o maior aeroporto do Brasil, o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos – Governador André Franco Montoro e o Aeroporto Internacional de Natal – Governador Aluízio Alves.

Internacional só no nome

O Aeroporto Santa Genoveva em 2020 foi autorizado a operar voos internacionais, entretanto, até hoje, nenhum embarque ou desembarque internacional ocorreu.

A capacidade do setor internacional é para 300 passageiros e, no ano passado, recebeu um investimento de mais de R$ 5 milhões para a sua modernização. Ao que parece, a internacionalização, na prática, vale menos para os políticos do que uma mudança de nome.