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Covid-19 começou nos bairros ricos de Goiânia e matou mais pobres trabalhadores

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Pesquisa da UFG não atualiza mais dados sobre a Covid-19 na capital por conta de mudança em boletim da SMS

Às vésperas do Carnaval de 2020 o mundo já estava vivendo o horror da pandemia de Covid-19, com o registro de milhares de mortes na Ásia, Europa e as primeiras na América do Norte. Nenhuma barreira sanitária foi imposta para evitar que a doença chegasse ao país para não prejudicar a economia e os lucros com o turismo da época.

O resultado da estratégia do Governo Federal é, até agora, um ano e sete meses daquele período carnavalesco, que contabilizamos quase 600 mil mortes no Brasil em decorrência do novo coronavírus.

Uma doença que infectou primeiro a classe média e alta, passando o vírus aos trabalhadores domésticos, que sem ter como parar de trabalhar nos meses iniciais da doença, acabaram por transmiti-la à outros usuários, como por exemplo os de transporte coletivo, em todo o país.

Em Goiás não foi diferente. Um estudo feito em 2020 pelo Núcleo de Goiânia do Observatório das Metrópolis, organizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou que o primeiro caso de Covid-19 em Goiás aconteceu no dia 2 de março, entre a população da classe média e alta que esteve em viagens ao exterior ou a outros estados, principalmente do Centro-Sul do País.

A doença foi detectada no Estado no dia 12 de março de 2020, quando três mulheres testaram positivo para a doença. Uma moradora de Rio Verde havia voltado de uma viagem à Espanha. Uma mulher de Goiânia havia voltado da Itália e a outra, dos Estados Unidos. Pessoas ligadas às mulheres acabaram contaminadas e repassaram o vírus a outras, passando do contágio familiar e no trabalho, para atingir nível comunitário e rodoviário. As pesquisas mostram que a doença, iniciada na classe média e alta, vitimou mais pobres e periféricos, com baixa escolaridade e trabalho informal.

Monitoramento

O monitoramento do número de casos da doença em Goiás é feito através da Plataforma Covid-19, desenvolvida pela Universidade Federal de Goiás, através do mapeamento dos casos confirmados, suspeitos, dos recuperados e dos óbitos por município e no caso da capital, por bairros e regiões. Os dados estão atualizados até dia 1º de outubro para todos os municípios goianos, exceto a capital, cujo fornecimento de dados para a plataforma foi encerrada dia 18 de agosto deste ano com a mudança do sistema do boletim da Secretaria Municipal de Saúde, incompatível com o utilizado pela pesquisa.

Para o coordenador da equipe de base de dados da Plataforma Covid Goiás – UFG, professor Rherison Almeida, os casos em Goiânia começaram em março do ano passado nos Setores Oeste, Bueno, Marista, Jardim Goiás, em condomínios fechados como o Alphaville e fora desse eixo Centro-Sul, no Setor Jaó. Nestes setores aconteceram o que ele classifica de “os primeiros grandes contágios”. Nos meses de maio até agosto, os casos foram avançando para regiões mais periféricas.

A Plataforma Covid Goiás é alimentada com dados da Secretaria Estadual da Saúde e em Goiânia, até julho, com dados da Secretaria Municipal de Saúde, possibilitando a análise por bairros. E foi através desta análise que foi constatado um nível elevado de doentes no Jardim Guanabara entre julho e agosto do ano passado, quase ultrapassando os números do Setor Bueno. O município autuou de forma rápida e tentou a população local, orientando sobre o isolamento social necessário e medidas sanitárias para evitar a disseminação da doença.

“isso foi algo possível a partir da nossa plataforma. Foi possível identificar e aí o município de Goiânia atuou de forma rápida, testando a população e fazendo também uma maior fiscalização. Eu lembro que vários jornais noticiaram essa questão e do descaso que estava ocorrendo no setor, pessoas sem máscaras, por exemplo,” conta.

Vacina

Em 18 de janeiro deste ano, a população de Goiás começa a ser vacinada. A Ex-gari Maria Conceição da Silva, de 73 anos, cega de um olho e moradora de abrigo de idosos, em Anápolis, foi imunizada pelo governador e médico Ronaldo Caiado. Desde então, a plataforma constata um número decrescente de casos de Covid-19 em Goiás. Na medida em que aumenta a imunização, diminui a incidência da Covid- 19 em todas as regiões do Estado.

O estudo não responde questões relacionadas ao número de mortes que poderiam ter sido poupadas pela doença caso a vacinação ocorresse em todo território brasileiro assim que as vacinas foram autorizadas pela comunidade científica. A assessoria de imprensa da Prefeitura de Goiânia informa que “de fato a vacina poderia ter evitado muitos óbitos de pessoas que morreram antes da introdução da vacina, mas não temos como saber, uma vez que a ocorrência do óbito depende de vários fatores, como a demora em procurar ajuda, a qualidade da assistência e de fatores intrínsecos ao paciente como idade, e presença de comorbidades”.

Plataforma acessível a qualquer pessoa

Quando foi lançada em março de 2020, os pesquisadores da Plataforma Covid Goiás pensaram em elaborar a plataforma em diversos aspectos, como dados socioeconômicos, epidemiológicos, localização de hospitais, unidades básicas de saúde, postinhos de saúde, dados que não existiam na forma georreferenciada disponível ao público.

“Além desses dados, inserimos vários outros e realizamos um cruzamento entre dados de demografia, rendimento familiar, infraestrutura, infraestrutura para idosos, casos de tuberculose, de doenças respiratórias, de doentes, de recuperados e de óbitos em todo o estado, por municípios e pensamos em insegir dados da qualidade do ar para que qualquer pessoa da população pudesse consultar, por exemplo, qual o horário mais seguro para levar um idoso a um posto de saúde”, conta o professor Rherison Almeida, coordenador da equipe de de base de dados da Plataforma Covid Goiás – UFG.

Para acessar a Plataforma Covid Goiás basta acessar o link: https://covidgoias.ufg.br/#/map

 


Rosana Melo

Rosana Melo é jornalista, vencedora dos prêmios: Prêmio AMB de Jornalismo da Associação dos Magistrados Brasileiros - Regional Centro Oeste; 13º Prêmio Embratel Regional Centro Oeste; 2º Prêmio MP-GO de Jornalismo; Prêmio OAB-GO de Jornalismo - todos em primeiro lugar e menção honrosa como finalista em dois Prêmios Esso categoria Jornal Impresso.