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Fim da democracia: Daniel Silveira é condenado pelo STF

Olha, sinceramente…

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Longas capas nunca significaram justiça. Acabamos de sair da Sexta-feira da Paixão, quando a velha história é relembrada: “Tende cuidado com os mestres da Lei. Eles fazem questão de andar com roupas especiais, apreciam serem saudados nas praças, ocupar cadeiras importantes, lugares de honra em banquetes e adoram ser chamados de mestre”.

Por incrível que pareça, não: as palavras de Cristo não se referem aos juízes do Supremo Tribunal Federal, mas sim aos fariseus que o entregaram à morte. No entanto, quando relemos com o mínimo de atenção, a velha história já não parece assim tão velha, atualizando-se: também temos “mestres da lei” que andam com “roupas especiais” e que adoram ser chamados de “Vossa Excelência“.

Cristo, que reservava suas mais duras críticas a esses homens, nunca deslegitimou as posições que ocupavam, admitindo o lugar de autoridade como válido. No entanto, mesmo a cadeira sendo permanente, os indivíduos que passam por ela, de tempos em tempos, não o são: do mesmo modo que os ministros da maior corte nacional não são a própria corte, mas apenas a compõem momentaneamente.

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Pensando assim, criticar ministros do STF não pode ser visto exatamente como “ataque” ao poder judiciário. Inclusive, pode significar exatamente o contrário: se um jardineiro tira a erva daninha de uma plantação, ele obviamente não está atentando contra sua lavoura, mas lutando pela sua preservação.

Por que falei tudo isso, até agora? Porque, nesta quarta-feira, 20, o deputado federal Daniel Silveira foi condenado a oito anos de prisão por ter publicado um vídeo irritado em que criticava e xingava diversos dos onze juízes do tribunal. Analisando a fala, parece-me que o pior que aquilo chega é Daniel dizer que “imaginava Edson Fachin tomando um surra“.

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Ora, nem ligando para a tal da “imunidade parlamentar” por agora, e só nos atendo a analisar de fato o possível crime praticado, só consigo pensar numa coisa: quando estou com raiva, ou indignada, costumo falar a verdade nos termos mais quentes -e ricos- que me vêm à mente: os criticados todos viram “fi de qu*nga” na minha boca, mesmo a mãe sendo uma santa imaculada. E completo: a coisa vale.

Mas Daniel, mesmo assim, pediu desculpas e se retratou (provavelmente por pressão). Só que eu sei que você, caro leitor, também é assim: desabafa as angústias com palavras que não ficam cuidadosamente se atendo a detalhes, mas à realidade de modo geral. Porque, nesta hora, ninguém se curva diante de picuinhas, na certeza de que o que vale é uma só coisa: o cerne, a essência e a verdade do que se diz (e nem tanto como se diz).

Estamos invertendo essa ordem de importância e verdade seja dita: nos últimos tempos, os homens e mulheres que compõem a corte suprema do Brasil parecem se considerar acima das críticas, e muito superiores ao bem e ao mal. Quer ver? Experimente ir até o Instagram e marcar o STF num comentário… pois saboreie da infame descoberta de que isso é impossível. Sim! Os deuses estão no Olimpo, superiores a todos nós, os zé povinho.

Você não precisa gostar de Daniel Silveira para achar a prisão absurda: eu mesmo mal o conhecia. Mas, se há caráter neste seu rosto (para te poupar da outra palavra), e você considerou “censura” quando o Tribunal Superior Eleitoral proibiu Pabllo Vittar de se manifestar a favor de Lula, agora é a sua chance de ouro, dada pela vida, de expulsar quaisquer fraquezas de caráter que te levem a viver assim, cinicamentesempre medindo o mundo com dois pesos e duas medidas.

Ora, nós sabemos que coisas muito piores são permitidas e gente realmente perigosa está a solta. Tentar pegar Daniel Silveira por qualquer palavra é semelhante, de novo, ao julgamento de Cristo: quando os fariseus, que viviam a vigiar sua boca, usaram das palavras do próprio Senhor para condená-lo. Não: Daniel não é como Cristo; é infinitamente menor. Mas, lembrem-se: todo julgamento injusto não passa de uma ramificação do que se deu em Jerusalém.

Quando Alexandre de Moraes disse, durante a votação, que o deputado “atentou contra a democracia”, não foi pioneiro nem nisso: é somente um novo jeito de Caifás dizer que “Cristo atentou contra a autoridade de César”. Nenhuma das duas coisas, no entanto, aconteceram de fato. Parece, sempre, que estão falando ao espelho, para si mesmos. Trata-se da regra número um para alcançar aquele tipo de sucesso fadado ao fracasso iminente: acuse-os do que você mesmo faz!

Luís XIV da França, o “rei sol”, é conhecido por cunhar a frase: “O Estado sou eu” (l´état c`est moi). Pois parece que com novos sóis estão ofuscados os três poderes no Brasil, que em tese deviam se equilibrar, a ponto de nenhum gozar de maior autoridade que o outro: Executivo, Judiciário e Legislativo. Todavia, os deputados federais, com raras exceções, assistiram à condenação de um parlamentar semelhante a eles como meros coadjuvantes obedientes, desprovidos de poder.

Mais de quinhentos homens, e, se dermos sorte, somando todos, chegaremos ao montante de duas bolas. De todo modo, a luz reflete sobre tudo o que há de mesquinho no mundo, e nada fica escondido: nestes teatros em que se fingem caráter e honra, muitos termos vazios são empregados para dar a impressão de pompa. Por exemplo, o clichê “estado democrático de direito“, termo adorado pelos enchedores de linguiça de plantão: e muleta velha dos que pagam virtude.

Mas, pergunte o que aquilo significa, de fato… na vida real, e você verá a mágica de burocrata se desmanchar desde sua plataforma, e vergonhosamente ir escorregando do salto. Por fim, eu sou só uma garota de 22 anos que tem uma coluna de opinião num jornal de Goiânia, mas sente um abafo no peito tão grande que, apesar do clima ameaçador, vomita tudo isso, e não por mim mesma, mas para que a verdade seja amada… como deve ser.

A única coisa que quero, de verdade, é ir para a fazenda com a minha família, jogar canastra, tomar banho de rio e comer comida de vó. É pedir muito? Mas como posso descansar tranquila enquanto meu país sangra? Tenho, também, um pai honesto e uma mãe que reza à noite, morrendo de medo de que os textos também sejam inclusos em “atos antidemocráticos”.

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