//

Vladimir Putin é de direita ou esquerda?

Presidente russo estrategicamente plantou essa dúvida na sua cabeça

Em

As histórias que povos antigos contavam sobre bem e mal concordam em um ponto principal: que o grande trunfo do diabo é a confusão. A própria palavra “diabolus”, vinda do latim, significa “aquilo que separa”. Pois no fim das contas, a famosa maçã da discórdia da mitologia grega, que foi implantada por Éris durante uma festa entre os deuses do Olimpo, e acabou causando toda a Guerra de Tróia, é a mesma maçã do Éden, mordida por Eva, e depois por Adão, que teria causado a queda de todo o gênero humano. Mas o que isso tem a ver com tudo?

Tanto o povo hebreu quanto os gregos escolheram a figura da maçã para representar, em seus mitos, um dos sete pecados capitais: a vaidade. “Capital”, que vem de “cabeça”, sugere que esse tipo de desvio de caráter é capaz de se desdobrar em mil novos erros, que por sua vez, originados daquele “pecado-cabeça”, vão afundando o indivíduo num lamaçal de confusão em que ele mesmo, sem ajuda, é incapaz de sair.

Exatamente como a deusa Éris, ou a serpente do paraíso, Vladimir Putin aprendeu o truque da maçã da confusão, tornando-se o maior estrategista político de nosso tempo. Sorrateiro, com propostas tentadoras e personalidade intrigante, o mundo inteiro, mas principalmente os brasileiros, ficam diante dele como um verdadeiro habitante da Torre de Babel: perdidos, como se cada um falasse o seu próprio idioma e ninguém entendesse mais nada.

• Compartilhe essa notícia no Whatsapp• Compartilhe essa notícia no Telegram

Afinal, de qual lado o homem está? A resposta é simples: do dele. Talvez engolido pelo pecado-master da vaidade, Putin sente a necessidade de agradar a todos os lados da polarização política, para que sutilmente coloque em prática os seus objetivos, sem grandes obstáculos. E parece estar funcionando: Vladimir é uma das únicas figuras –senão a única– admirada tanto por progressistas quanto por conservadores. Do mesmo modo, na outra face da moeda, pode ser igualmente detestado por “direitistas e esquerdistas“.

E por quê? Porque é fácil calotear o brasileiro. Mais simples do que enganar Branca de Neve na floresta, Putin não precisa se vestir de boa velhinha para nos oferecer uma maçã envenenada (olha ela aí de novo): basta falar o que cada grupo quer ouvir. Num dia, ele fala grosso, faz cavalgadas na floresta com cara de mau e se diz cristão ortodoxo: daí os conservadores se derretem todos, como menininhas apaixonadas. “Que lindo, ele é nosso herói!”, tietam nas redes sociais. Enquanto isso, a esquerda se enoja: “macho escr*t*, hétero top!“, bravejam no Twitter.

LEIA TAMBÉM

• Para Putin, Ocidente sacrifica o mundo para manter dominação global• Rússia intensifica ataques à Ucrânia, que já teria perdido 23 mil soldados• Vídeo: Forças especiais russas capturam ucranianos acusados de torturar prisioneiros

Mal amanhece um novo dia, e Putin já estará saudando a memória de Lênin, cantando o hino da antiga União Soviética e ligando para Nicolás Maduro, na Venezuela, e Díaz Canel, representante da família Castro em Cuba, para pedir apoio durante a invasão à Ucrânia. Então, uma ala conservadora confirma suas suspeitas sobre o “lado político de Putin”, e outros pagam de cegos, passando por cima da coisa toda. Porque claro: ele exala testosterona. Já a esquerda, nessas horas, endurece, fica brava e toda guerreira: o PT mesmo manifestou, em suas redes sociais do Senado, afabilidade à Rússia durante as recentes invasões. Eles escreveram que condenam “a política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia”, mas a coisa pegou tão mal que a publicação foi apagada (embora os prints sejam eternos).

Para se ter uma ideia da capacidade de camaleão de Vladimir Putin, ele consegue, numa só carta, endereçada ao povo russo na semana passada, agradar a gregos, troianos e maltas: chama o ocidente de decadente, denuncia farsas da ONU e fala em “moralidade, justiça e verdade”: ponto marcado com a direita! Noutro parágrafo, acusa os Estados Unidos de serem maldosos imperialistas, chamando a nação de “império das mentiras”: ponto para Vladimir-militante, e a esquerda vai ao delírio!

Nascido em Leningrado, comunista atuante como espião pelo serviço secreto soviético e entusiasta de uma nova Rússia, aos moldes da que reinou no último século, Putin chegou a falar sobre como o sistema de governo da época levou a nação à miséria e subdesenvolvimento. Nesse jogo dialético, brincando de torcer com a sua mente, Vladimir posa como o ex-comunista que, de vez em quando, sofre de ataques de saudade. “Guardo com carinho o manifesto do partido (escrito por Karl Marx e Fiedrich Engels) […] continuo apreciando os ideais comunistas e socialistas”, e acrescenta a jogada de mestre: “lembram muito os da Bíblia!”.

Não é de admirar que, no Brasil, o PSDB foi conhecido como partido de “direita” por mais de duas décadas: aqui é só botar um terninho de grife que todo mundo já acha que é conservador. Basta falar engomado, não vestir camisa surrada do Che Guevara e raspar a barba: pronto, não pode ser de esquerda! Pois pela mesma sigla tucana é que foi eleito o presidente Fernando Henrique Cardoso, que se descreve como socialista e representante da esquerda política. Aqui, as aparências sempre mandam e no fritar dos ovos, sempre enganam. É preciso, por isso mesmo, ir mais a fundo, passar das observações superficiais e conhecer as ATITUDES políticas e a possível ESTRATÉGIA que as explicam.

O burburinho que corre por aí é que não existem “ex-agentes” da KGB. De qualquer modo, Putin ainda parece mais preparado que Tom Cruise em qualquer dos filmes de Missão Impossível: fisicamente, sendo faixa preta em Judô, e mentalmente, com os conselhos do cientista político Alexandr Duguin, cujo ideal é “restaurar os valores soterrados pela modernidade”, mas, para isso, o Ocidente se torna o grande inimigo, já que, como Putin mesmo escreveu na carta acima citada, tem pseudo-valores que os corromperiam por dentro, levando à “degradação e degeneração” dos russos, contradizendo “a própria natureza do homem”. Lindo? Nem tanto. É a velha “salvação pela destruição“. Então, será que Putin deseja salvar a decadência do mundo destruindo-o para fazer um novo, a seu modelo?

Pois cada vez mais, a cada ação desta guerra com a Ucrânia, vai deixando de parecer loucura o sonho do “Império Eurasiano”, sob direção da “Grande Rússia”. A boa verdade é que, enquanto Biden, Putin, Zelensky, Lukashenko, Maduro… lutarem por si mesmos, quem sofre são suas populações. São as crianças ucranianas nascidas em maternidades improvisadas, enquanto os pais estão na linha de frente, segurando armas, e provavelmente pensando num futuro incerto junto aos filhos. Mas lembrem-se: Stálin agonizou no leito de morte de maneira angustiante; Napoleão morreu isolado em uma ilha; Hitler cometeu suicídio junto à esposa… Qual o fim dos homens que tentam dominar o mundo? Eles não dominam nem a si mesmos.

Por mera coincidência, é o evangelho de hoje (quinta-feira, 3 de março): “Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?” (Lc, 9, 25). Putin, certamente, conhece a citação. E agora, já não me parece tão inteligente, tão estratégico, tão dono de si. Para fechar o texto, os antigos falam de um segundo trunfo do diabo: que não acreditemos na sua existência. Pois acreditem: Putin existe, e está a operar!

Tags: