Mutirama: Parque foi reaberto de forma irregular em Goiânia

Acidente com montanha russa pode ser mais grave que o ocorrido com Twister em 2017

Servidores do Mutirama denunciam a existência de trincas nos trilhos da montanha russa, um dos brinquedos mais populares do parque de diversões. Assim que constatadas, a direção teria providenciado a soldagem “da grande maioria das trincas, mas operadores e pessoas que conhecem o equipamento, não indicam o seu funcionamento sem uma reforma e sem a substituição dos trilhos que foram soldados”.

A recomendação consta da denúncia encaminhada ao Ministério Público de Goiás, alertando que o uso do brinquedo pelo público pode causar um acidente muito mais grave que o ocorrido em 2017 com o Twister, que quebrou com 16 pessoas a bordo, causando ferimentos em 13, sendo 2 com gravidade.

O presidente da Agência Municipal de Turismo, Eventos e Lazer (Agetul), Valdery José da Silva Júnior, garantiu que a montanha russa do Mutirama está interditada desde a reabertura do parque no dia 15 de maio e que solicitou à empresa que faz manutenção preventiva, preditiva e corretiva que tome providências quanto a denúncia de rachadura nos trilhos do brinquedo. “Sei que a montanha russa está em condição de uso, mas se tem denúncia temos de apurar. Também sei que alguém quer inviabilizar nosso trabalho, que houve choque de gestão, mas não vou arriscar a vida de ninguém. Por isso, estou tomando todas as providências”.

A denúncia é investigada pela promotora Leila Maria de Oliveira, do Centro de Apoio Operacional do Patrimônio Público que, procurada pelo Diário do Estado, informou que aguarda respostas de órgãos sobre o que foi denunciado. Ela deu prazo de 15 dias para que enviem as respostas ao MP-GO. O prazo expira esta semana, segundo a promotoria.

É que além de denunciar as trincas nos trilhos da montanha russa, os servidores – cujos nomes não aparecem na denúncia -, lembram que o parque foi reaberto apesar de ter sido interditado pela Vigilância Sanitária no final do ano passado devido as precárias condições dos banheiros e vestiários dos servidores. Eles sugerem que o MP-GO cobre dos órgãos competentes as documentações necessárias ao funcionamento do parque.

Segundo a denúncia, o Mutirama foi reaberto sem o alvará de funcionamento emitido pelo Corpo de Bombeiros. Também não tem laudo de inspeção dos geradores; laudo de medição e manutenção dos pontos de aterramento dos brinquedos do parque; laudo de inspeção e manutenção dos compressores; plano de emergência e evacuação do Mutirama e do Zoológico; ausência de uma brigada de incêndio nas duas unidades e a ausência de certificado de treinamento dos operadores de brinquedos.

Conforme os servidores, não se sabe em que condições estão os pontos de aterramento dos brinquedos, o que pode causar acidentes com choques elétricos, colocando a vida de servidores e usuários do parque em risco. O mesmo ocorre em relação aos compressores dos brinquedos Tele Combate, Volta ao Mundo, Bicho da Seda e Montanha Russa. Caso haja defeito nos “vasos de pressão, os mesmos podem causar explosões similares a de uma bomba”, diz o documento entregue ao MP-GO.

Os servidores ainda denunciam a direção do Mutirama de assédio moral no ambiente de trabalho. “Desde o início da nova gestão municipal, a exposição de pessoas a situações humilhantes e constrangedoras na Agetul e Parque Mutirama tem acontecido de forma repetitiva, o que traz danos à dignidade dos servidores”. Em contato com servidores, eles alegaram que Valdery refere-se ao Mutirama como “República de Caldas Novas”, uma vez que é indicação da deputada federal Magda Moffato, que apoiou a chapa de Maguito Vilela e Rogério Cruz à Prefeitura de Goiânia.

O prefeito Rogério Cruz dias antes da reabertura do Parque Mutirama.

Parque voltou a funcionar com público reduzido dia 15 de maio
O funcionamento do Parque Mutirama foi autorizado em decreto publicado no dia 11 de maio, com capacidade de visitação reduzida a 50%, ou seja, de até 3 mil pessoas diariamente. O parque foi aberto das 10 às 16 horas, de quinta-feira a domingo. Todas as pessoas têm a temperatura aferida na entrada do parque que, segundo a direção, possui diversos recipientes com álcool em gel para higienização das mãos. O uso de máscaras e o respeito ao distanciamento social são fiscalizados pelas equipes da Agetul.

 

Presidente da Agetul, Valdery José da Silva Júnio

AGETUL
O presidente da Agetul, Valdery José da Silva Júnior disse que nos últimos cinco anos o Mutirama funcionou sem o Certificado de Conformidade, que é anual e que não era emitido por causa de uma série de problemas no parque. “Iam fazendo costuras, aumentando prazos junto aos órgãos. Estou na Agetul deste o dia 4 de janeiro e nestes 5 meses já procurei todos os órgãos para regularizar a situação dos parques Mutirama e Zoológico. Hoje temos um quadro com engenheiros que são responsáveis por todos os brinquedos. Essa equipe nos dá a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) de cada brinquedo”, explica, informando que hoje o parque está seguro.

Valdery Júnior acredita que a denúncia tenha sido feita por um engenheiro que era responsável pela montanha russa e que foi dispensado do parque dia 26 de maio. “No dia 27 ele fez a denúncia no Ministério Público”, afirma. O Diário do Estado não teve acesso aos nomes dos servidores que encaminharam a denúncia à 50ª Promotoria do MP-GO. Segundo o presidente da Agetul, no dia 16 de março o Corpo de Bombeiros deu o prazo de 120 dias para que a agência cumpra com as exigências para o funcionamento do parque.

“Então tenho até o mês 9, mas acredito que em um mês no máximo teremos toda a documentação exigida e esta será a primeira vez em cinco anos que vamos ter todas as certificações. Agimos com transparência em nossas ações e tanto o prefeito Rogério Cruz quanto os órgãos envolvidos nestas certificações foram comunicados por mim desta denúncia e das providências que já tomamos”, finaliza.

Documentos

O Diário do Estado teve acesso ao Cercon relativo ao ano de 2020 emitido pelo 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros. O documento foi liberado também em 2019 para a reabertura do Parque depois de cumpridas todas as demandas do Corpo de Bombeiros, época em que o então prefeito Iris Rezende fez a reabertura do parque. No documento de 2020, porém, conta uma observação de que o Parque Mutirama não possui sistema preventivo existente e que o documento era válido para o funcionamento dos brinquedos Splash, Barca, Music Exp, Super Jet, Xícara Maluca, Volta ao Mundo, Treinzinho, Tobogã, T.Combate, Roda Gigante, Red.B., Mini Tornado, Mini Montanha, Mini Helicóptero, Mini Carrossel, Mini Auto Pista, Dumbinho, Cine 4D, Carrossel, Auto Pista.

Cercon relativo ao ano de 2020 emitido pelo 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros.

Segundo servidores do Mutirama ouvidos pelo DE e que preferem não se identificar alegando perseguição, ainda em 2020 o parque foi fechado por causa da pandemia e depois de uma visita de rotina da fiscalização da Vigilância Sanitária, foi interditado por causa de problemas nos vestiários e banheiros dos servidores, o que não foi solucionado segundo eles. “O Parque foi reaberto esse ano mesmo com a interdição da Vigilância Sanitária, bem como com a ausência do Alvará de liberação do Corpo de Bombeiros e demais laudos”, afirma um funcionário do parque.

Os próprios servidores teriam informado a situação do Mutirama ao prefeito Rogério Cruz. O contato teria sido feito por mensagem de texto e isso, segundo eles, quase teria impedido a reabertura do parque. Eles lembram que o ex-prefeito Iris Rezende não teve problemas com a Justiça na época do acidente com o Twister porque tinha toda documentação do parque.

“Agora, a situação está pior. Vivemos agora tempos sombrios. O Mutirama foi reaberto de forma irregular e o presidente escondeu isso do Prefeito. O parque esta irregular, em situação pior que o ano de 2017 quando houve o acidente. O parque nunca funcionou sem o CERCON e depois de reaberto em 2019, era renovado a cada 3 meses, passando por vistorias pelos Bombeiros. O Parque foi reaberto em 29 de junho de 2019 com toda documentação em dia. Hoje o parque esta sem documentação por conta do cancelamento de todos os processos que estavam abertos para viabilizar a contratação das empresas para efetuar não só a elaboração dos laudos, bem como o treinamento e os cursos para os servidores”, alertam.

Mutirama já foi alvo de investigação por desvio de dinheiro de bilhetagem
Deflagrada no dia 23 de maio de 2017, a Operação Multigrana, do Ministério Público de Goiás (MP-GO), investigou um esquema que operou entre 2014 e 2017, e que somente entre maio e dezembro de 2016 desvio mais de R$ 2 milhões do dinheiro dos ingressos vendidos nas bilheterias do Mutirama e do Zoológico, ambos administrados pela Agência Municipal de Turismo, Eventos e Lazer (Agetul).

O esquema foi denunciado ao MP-GO na época pelo então presente da Agetul, Alexandre Magalhães. Em janeiro de 2000, a juíza Placidina Pires, da Vara dos Feitos Relativos a Delitos Praticados por Organização Criminosa e Lavagem de Capitais, condenou nove, dos dez denunciados na operação.

Os réus foram condenados a penas que variam de 4 a 12 anos de prisão e ao pagamento de multa, em razão da prática dos crimes de organização criminosa e peculatos continuados, além de terem de reparar os danos causados ao erário, que totalizavam, na época, o valor de R$ 2.181.458,10. Como cabia recursos à sentença, as penas ainda não foram aplicadas, uma vez que os processos não transitaram em julgado até os dias atuais.

Na sentença, foram condenados os réus:
– Clenilson Fraga da Silva: 9 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão, além de 30 dias-multa, em regime inicial fechado;
– Dário Alves Paiva Neto: 12 anos, 4 meses e 15 dias de reclusão, além de 37 dias-multa, em regime inicial fechado;
– Geraldo Magela Nascimento: 12 anos, 4 meses e 15 dias de reclusão, além de 37 dias-multa, em regime inicial fechado;
– Zander Fábio Alves Da Costa: 12 anos, 7 meses e 25 dias de reclusão, além de 34 dias-multa, em regime inicial fechado;
– Fabiana Narikawa Assunção: 7 anos, 11 meses e 10 dias de reclusão, além de 33 dias-multa, em regime inicial semiaberto;
– Larissa Carneiro de Oliveira: 6 anos e 10 meses de reclusão, além de 28 dias-multa, em regime inicial semiaberto;
– Leandro Rodrigues Domingues: 6 anos e 10 meses de reclusão, além de 28 dias-multa, em regime inicial semiaberto;
– Davi Pereira da Costa: 4 anos, 2 meses e 5 dias de reclusão, além de 12 dias-multa, em regime inicial semiaberto;
– Deoclécio Pereira da Costa: 4 anos, 2 meses e 5 dias de reclusão, além de 12 dias-multa, em regime inicial semiaberto. (Com informações da Assessoria de Comunicação Social do MP-GO )

Laudo de acidente com Twister que deixou 13 feridos apontou falta de manutenção do brinquedo

A falta de manutenção no brinquedo chamado Twister, que já não existe mais no Parque Mutirama, foi a causa do acidente ocorrido no dia 26 de julho de 2017 que jogou 16 pessoas ao chão, deixando 13 pessoas feridas, duas com gravidade, entre elas, a merendeira Iraci Francisca da Conceição, na época com 56 anos, teve a perna direita esmagada.

O laudo do Instituto de Criminalística apontou que o brinquedo não poderia estar em funcionamento e que o problema se deu por um “processo de fadiga”. Foi constatada uma fissura de 10,8 centímetros na peça em vistoria anterior ao acidente, mas nada foi feito para evitá-lo.

Na época foram indiciados por lesão corporal o presidente da Agência Municipal de Turismo, Eventos e Lazer, de Goiânia (Agetul), Alexandre Magalhães; o engenheiro mecânico José Alfredo Rosendo, responsável técnico do Mutirama; e o supervisor do parque, Wanderlei Alves Siqueira.

O parque ficou interditado desde o acidente, passou por ampla reforma, manutenção e vistoria e foi reaberto em 2019 pelo então prefeito Iris Rezende. Ele foi novamente interditado por conta da pandemia de Covid-19 e reaberto recentemente pelo prefeito Rogério Cruz, com público reduzido e com medidas para evitar aglomerações.

* Rosana Melo, especial para o Diário do Estado

 

 

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