Vítima de cinco cânceres, goiano pretende escalar o Everest

João Saci perdeu uma das pernas e parte do pulmão esquerdo para a doença, mas não abandonou o esporte

O goiano João Carlos Rodovalho, ou João Saci, segundo suas próprias palavras era “um jovem comum que gostava de futebol, natação e balada” que tinha muito a aproveitar. Na adolescência, entre o fim dos anos 90 e início dos anos 2000, aproveitava a vida num prédio com uma grande área de lazer, muitos amigos e a prática frequente de natação, no Colégio Militar.

Aos 17 anos, em 2001, passou pela primeira de uma série de provações que iriam transformar sua vida quando descobriu o primeiro de cinco cânceres no pulmão. O tumor, conhecido como Sarcoma de Ewing,  afeta principalmente adolescentes e jovens adultos, especialmente homens por volta dos 15 anos.

O processo ficou ainda mais desafiador quando, em decorrência da doença, João foi obrigado a amputar a perna esquerda, o que transformou completamente sua vida. “Fiquei com a auto-estima muito abalada, mas voltei a nadar e me vi capaz como todos os outros”, comenta.

“Apesar de perder a perna, eu continuava sendo a mesma pessoa, mas com uma limitação com a qual eu deveria aprender a conviver”.

Acervo Pessoal: João participando de um campeonato de CrossFit

 

O retorno para as piscinas foi triunfal e em 2002 ele chegou a ser Campeão Brasileiro nas piscinas. A partir daí colecionou uma série de medalhas até que, em 2005, descobriu um segundo câncer e precisou retirar 12 nódulos do pulmão. Mesmo já tendo passado pelo processo, João afirma que a segunda vez foi muito mais difícil, pois ele já sabia das dificuldades do tratamento e sofreu um baque ainda mais inesperado do que da primeira. Além disso, o fato de estar no auge de sua carreira de nadador fez com que ele questionasse muito de sua vida.

“Eu cheguei a pesar 52 kg, com 1,85 m de altura. Eu nunca acreditei que ia morrer em decorrência da doença, mas cheguei a pensar em suicídio porque eu não aguenta mais aquele sofrimento e aquela dor”, relembra.

Apesar disso, ele encontrou forças na parceria da família, da psicoterapia e da sua própria fé. “Eu precisei desenvolver minha consciência com pensamentos de que se a gente quer ajuda, a gente tem que se ajudar, e isso me moveu”.

Após vencer o segundo câncer, ele voltou a sofrer com a condição uma terceira vez, em 2009, e uma quarta em 2010. “Na quarta vez eu tive que tirar parte do pulmão esquerdo e o médico disse que eu não iria mais ser competitivo nas piscinas”.

Mesmo assim, João Saci voltou a nadar e chegou a ser vencedor em campeonatos regionais que participou, mas decidiu parar. Sem muita enrolação, ele deixa claro que parou por “não tinha mais saco, tinha perdido o tesão de nadar”. Na época, o desânimo tomou conta para além das piscinas e ele passou por uma fase de apatia, depressão e ganho de peso. O alerta só acendeu quando ele passou a roncar e sua então esposa, hoje ex, chamou atenção para o fato. “Ela destacou que eu, como ex-atleta, estava nesse estado e eu decidi procurar uma nova mudança”.

Em 2014, então, João Saci passou a se dedicar ao CrossFit, que pratica até hoje. Na mesma época, também começou a explorar atividades de caminhada, corrida e trekking, explorando uma atividade que antes achava extremamente entediante.

“Meu negócio sempre foi nadar, não andar. Caminhar pra mim era uma preguiça, e hoje é um desafio que faço para sair da zona de conforto”. Ele ainda brinca ao relembrar as corridas mais marcantes: na primeira, em 2015, correu 9 km de muleta com a adição de obstáculos do exército no percurso; enquanto na segunda caminhou por 23 km e “no fim eu me movia parecendo o Robocop (risos)”.

João também aproveita para destacar os benefícios que aprendeu e enxergar na caminhada. Segundo ele, estar em contato com a natureza permite observar muito mais coisas, mesmo em situações adversas. “Quando você caminha no cerrado, por exemplo, é tudo muito bonito, mesmo na secura. Você vê uma flor, chega numa cachoeira e escuta o barulho e isso te dá uma motivação diferente”.

E é exatamente pensando numa motivação diferente que João Saci decidiu se propor um novo desafio: subir o Evereste. Localizado no Tibete, o monte é o de maior altitude no planeta, com pico a 8.848,86 metros acima do nível do mar.

A ideia surgiu depois que ele viu um amigo de CrossFit realizando o feito, o que despertou o desejo de fazer o mesmo. “Ele ainda chegou a comentar comigo que eu só tinha uma perna, mas eu respondi dizendo que eu treinava mais que ele e a gente só riu da situação”, comenta, sempre bem-humorado.

A missão estava prevista para 2020, mas precisou ser adiada por causa do início da pandemia do Covid-19. O plano B era de realizar a subida em 2021, mas atualmente o atleta já está no plano C, com meta de escalada para 2022, aguardando uma estabilidade internacional que permita a viagem.

“Antes eu tenho que fazer um curso preparatório num acampamento, porque ainda não tenho experiência de montanha”, explica. “Além disso, essa primeira etapa é mais acessível, porque todo o processo é muito caro”.

De acordo com os cálculos de João, todos os custos da viagem e da subida são estimados em cerca de R$ 500 mil.

Deficiência

Ao falar sobre a deficiência, João Saci deixa claro que não se limita pela sua amputação ou pela jornada que teve com o câncer. “Eu sou muito mais do que isso e gosto de viver a vida no mlehor que ela tem a oferecer. Também busco ressignificar tudo o que acontece para crescer, me desenvolver e ajudar os outros”.

Acervo Pessoal: João se preparando para competição de natação

Ele ainda diz que em algumas ocasiões gosta de ouvir uma frase que outros deficientes podem achar ofensiva. “Quando algum amigo me diz que às vezes até esquece que eu não tenho uma perna, eu encaro de forma positiva, porque significa que estão me enxergando para além da minha forma física”, explica.

Mesmo quando comenta que o capacitismo e o preconceito são problemas que permeiam a condição, João Saci ainda tenta trazer um viés otimista para a situação. “É claro que o capacitismo está aí, o preconceito sempre vai existir e eu luto para não ter, mas eu também busco me fortalecer para conseguir lidar com esse preconceito.

João ainda destaca situações em que ele ou outros deficientes são citados como exemplo de superação. Segundo ele, a citação é válida, mas tem um valor maior quando não reduz o contexto somente à superação física.

“Eu sou sim um exemplo de superação, mas não só pela parte física. Eu tive que vencer muitas barreiras, como meu próprio preconceito, minha própria aceitação”.

E antes mesmo de subir o Evereste, ele já garante que outras superações ainda vêm pela frente. Atualmente ele divide a vida entre uma carreira na área de tecnologia e a jornada de atleta – que também lhe permite atuar como influenciador nas redes sociais e em palestras que dá contando sua história – e promete que outros desafios irão ocorrer. “Preciso de condição financeira pra isso, mas já pensei até em atravessar o Canal da Mancha nadando”.

Na despedida da entrevista, João Sacio deixa uma mensagem tirada de seu livro Nascido Para vencer, em que diz que “a pior deficiência que existe é a de virtude e valores humanos.”

 

Acervo Pessoal: João comemora campeonato
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