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Entrevista com mendigo de Planaltina é espetacular: vamos falar sobre isso!

Abre-se um novo capítulo da polêmica: o único que é realmente interessante

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Olá, leitores. A escritora que vos fala, em artigo recente, foi uma crítica da exposição do caso de traição conjugal que ficou famoso no Brasil: o mendigo versus personal. Lembra? Aquela história, que mais parece um caso de família, e que por isso mesmo não convinha ter um país inteiro de audiência: um marido flagra a esposa no carro, tendo relações sexuais com outro homem.

Ah, e sim, um pequeno detalhe fez de tudo ainda mais colorido para o brasileiro, sedento por uma boa crônica: o garanhão era, no termo popular (que foi desaprovado pelos fiscais da linguagem), um “morador de rua”.

Acontece que a novela recentemente ganhou mais um episódio, que devo admitir: é realmente bom! Até que enfim a coisa está ficando interessante. Pois veja: desde que mundo é mundo existem traições, traidores, traíras e coadjuvantes…

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Nada de novo sob o sol. Mentiras, desentendimentos, desvios morais e miséria não são novidade para ninguém: nós vivemos isso em nossas realidades, ora sendo as vítimas, ora os culpados. Nada assim tão grave que mereça o embranquecimento de nossos cabelos: errou? “Uai, conserta!”

É que hoje deram na cabeça de fazer uma entrevista com o personagem mais legal da trama inteira: o mendigo. No Brasil, nada escapa do campo do escárnio e da chacota: em matéria de gozação, temos pós-doutorado e damos aula para qualquer gringo menos qualificado. Givaldo Alves (seu verdadeiro nome) já virou figurinha carimbada em memes, zueiras, trolagens e piadas de corno pelo país afora.

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Mas hoje ele está de volta, e com tudo: o site Metrópolis (parabéns aos colegas!) publicou uma entrevista de meia hora com o apelidado mendigo, que absolutamente é uma das peças que mais valem a pena conferir do jornalismo recente. Tanto, que os tweets dispararam na tarde desta quinta-feira, 24. “Mendigo” já é assunto na boca de 50 mil. Por que?

Ao contrário do que se imaginaria de uma pessoa naquela situação de fragilidade (admita), Givaldo é extremamente articulado com a linguagem. Mas não é uma coisa do tipo: “Ah, ele fala ok“. Não! Isso não impressionaria! Na verdade, estou querendo dizer que o homem é mais articulado do que você, eu e mais uma fila de diplomados que só sabem repetir “estado democrático de direito”.

Você tinha que ver! Pronomes relativos… calibrados! Palavras difíceis… tantas que eu nem me lembro! Concordância verbal (plural, singular)… como poucas pessoas dominam. A certo momento, ele até entrega uma possível explicação: “tenho amor pela literatura”.

Sinceramente, não posso dizer que tudo o que foi dito ali é verdade. Ainda não foram criados fact checkings de consciência, via telepatia (dê um descanso ao pobre do jornalista!). Mas que parece ser um homem sincero… ah, isso com certeza! Antes de contar sua história, o depoente pediu um minuto de silêncio pelas vítimas da guerra na Ucrânia.

Depois é que veio o enredo: segundo ele, não está na rua “obrigado”. Nasceu no nordeste, em família pobre de dez filhos, e foi para São Paulo na adolescência, onde conheceu o “trabalho pesado”. Casou-se, e teve uma filha.

Depois de se separar, teria ido morar com parentes em Tocantins, onde certo dia “procurou andar”, e literalmente “saiu de casa sem rumo”. Admite tudo: o “meu jeito difícil”, a “gandaia”, e o gosto por uma cachacinha.

Não minto: ocorreu no meu pensamento o que passaria na mente de qualquer um para quem essa realidade causa estranhamento: “Meu Deus, o que faz uma pessoa viver assim por escolha?”. Não sabendo a resposta, e preferindo não julgar, desisti do raciocínio e voltei ao vídeo.

Logo Genivaldo fala de política, fato que causou mais reboliço ainda na repercussão da internet. “Nosso presidente, no qual votei com muito orgulho, e votarei outra vez“, diz, sobre Bolsonaro. Aí já sabe, né? Um prato cheio para os piadistas da mesma posição política.

“Na época de Lula, o pobre comia picanha. Já na de Bolsonaro…”, bom, vocês entenderam bem a piada que está rodando o Twitter. Só vamos tentar resguardar o resto de pudor deste texto – se há algum.

Sobre a mulher em questão, esbanja romantismo. Conta que foi chamado na rua pela esposa do personal com sua “voz doce”. “Moço?“, mas achou que nem era com ele. “Quero namorar com você!”. “Mas eu sou mendigo, moça. Tem certeza? Não tenho dinheiro nem para um Motel”.

“Pode ser no meu carro”. “Aí a senhora me deixa sem argumento”. Meus amigos, que sinceridade engraçada foi essa de se ouvir! “Então, se a senhora me quiser, me leve para algum lugar”. Quando lembra, chega a poetizar: “A coisa mais maravilhosa e linda, um corpo de mulher”. E define a experiência como “um convite maravilhoso do qual vivi as experiências mais prazerosas possíveis até aquele instante arrebatador“.

Para além de elogios como “linda”, e “flor do jardim de Deus”, demostrou preocupação: “Não me arrependo, porque não estava fazendo nada de errado, mas que a senhora não faça mais essas loucuras de sair chamando pessoas na rua. Me encontrou, mas poderia ter achado alguém mal intencionado, que faria algo de ruim”.

Outro ponto a se destacar: parece um homem de fé. Teria pedido oração a um grupo de senhoras na rua, e ganhou um rosário de uma mulher muito “modesta” e católica. Aproveitou ainda para agradecer o apoio de muitos que o suportaram enquanto vagava sem moradia.

Sabe o que é mais impressionante aqui? Todos os benfeitores são membros de grupos religiosos. Esses mesmos, vítimas de críticas daqueles que não se levantam por ninguém. São eles quem foram agradecidos por nome: a Igreja Católica, os “irmãos protestantes” e suas denominações citadas.

No fim das contas, meu leitor, sempre ficam as duas coisas que realmente importam neste mundo. O vislumbre do abandono por quem foi usado: “O sofrimento que isso me causou é o de me deixar sozinho para sempre“. E a caridade… que não pergunta, não julga, não abandona: e sempre deixa um coração grato. Resumindo a vida nas próprias palavras de Genivaldo, o mendigo mais famoso do Brasil: “amar a Deus sobre todas as coisas, e o próximo como a si mesmo”.

Pode ser tudo mentira? Bom, é claro que pode. Mas uma daquelas bem contadas

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