Lembranças: os melhores momentos de Jô Soares revisitados com ternura

Como disse um grande homem, certa vez: “O que aconteceu não desacontece: e está para sempre na eternidade!”

Teve um dia em que chorei assistindo Jô Soares. Não lembro ao certo quantos anos tinha, mas se já tenho poucos agora, à época, então, eles eram ainda mais minguados. O cantor Roberto Carlos era o entrevistado: o próprio homem do final de ano, caricato do cabelo ao terno e envolto no mistério da perna biônica -que, me disseram um dia, tinha sido comida por um tubarão.

“Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada. Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas”, começou ele, no sofá das entrevistas, acompanhado pela banda do palco. Roberto estava oferecendo aquela canção para Jô Soares, que tirou o lenço elegante que ficava sempre de enfeite no bolso do terno, junto ao peito, e fez dele útil, finalmente: limpando lágrimas.

Roberto também chorava. Apertaram as mãos com força e orgulho, testemunhando ao Brasil uma cumplicidade sincera. Declararam-se amigos verdadeiros: de longa data.

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Poucos segundos antes, no primeiro verso da música, minha mãe exclama com entusiasmo: “Ai, essa é a minha música com a Janete!”. É que as amigas de infância, certo dia, já crescidas, passeavam de coletivo pelas ruas de Goiânia, quando ouviram pela primeira vez essa canção. Pronto: tornara-se oficialmente delas.

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Desde então, pela magia da vida real, que me provou ali mesmo poder ser realmente interessante e aberta a grandes roteiros a serem vividos, eu a amo. Amo aquela música que tocou na rádio do ônibus, disputando com o ruído do motor, e vencendo como a voz de um ser onisciente que, por acaso, decidiu narrar para aquelas duas garotas a história que compartilhavam.

“Me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro. Você tantas vezes provou que é um grande guerreiro! O seu coração é uma casa de portas abertas: amigo, você é o mais certo das horas incertas!“. Aí, meus queridos, eu chorei também, meio escondida, disfarçando com o rosto; encarando a cabeceira do sofá como se tivesse um infinito a ser contemplado.

Devo isso ao Jô Soares, que faleceu hoje, aos 84 anos. E, quando as pessoas morrem, eu não gosto muito dessa coisa de relembrar malfeitos e momentos medíocres. Minto: eu até lembro, mas ficam guardados para mim, sem deixar escapulir pela boca.

Fico apenas grata por estas coisas: as grandes coisas, as bonitas, com as quais uma existência dá ao mundo o ar de sua graça.

E o resto, meu colega: o resto a Deus pertence. Como pertencerá também os nossos piores dias, as piores palavras, os feitos tolos e imbecis: meus e seus, nunca se esqueça disso! Só que, reparando melhor, não há mãos melhores onde se abandonar uma história: Ele é mais bondoso e propenso a esquecer nossas falhas do que uma torre inteira de benfeitores, amontoados um em cima do outro.

Por duas vezes, só hoje, vi Jô falar em perdão. Não por acaso -o acaso não existe: que achava lindo o perdão e que era a coisa que mais admirava no cristianismo. Descreveu-o, sabiamente encantado, de “perdão imediato” e sem ressalvas.

Outro dia, ido Roberto, veio Leonardo, uma das sete maravilhas de Goiás, para presentear os espectadores com o seu desbocamento, que por sua vez é a oitava maravilha do Centro Oeste. “Ô povo feio, os meus parente! Muiezada escanchelada… eu falei pra elas ‘vai tomar um banho, vai na loja, no salão“… “Falei pro médico que não tinha como meu filho sair do hospital sem sequela, porque mesmo antes do acidente o Pedro já tinha pelo menos uns 15% de sequela!”.

Anos antes, Dinho, do Mamonas, apresentava “Robocop Gay” no palco do Jô, todo encarnado, transfigurado – e talvez hoje cancelado, embora eu tema até de relance dar essa sugestão. Aquela é uma das poucas lembranças dos meninos de carreira meteórica: um momento bom para os habitantes de 1995, guardado graças ao gordo -epa, olha o perigo aí…

Num Brasil sem celulares e com rara internet, o entretenimento sobrava completamente para a televisão. E assim, sofríamos muito de tédio, atacados por programas de plateia com durações infinitas que consumiam as tardes e sugavam nossa vitalidade com seus game shows repetidos, fofocas mal contadas e concursos de talentos que… bom, isso pelo menos não era tão ruim assim.

Acontece que Jô salvava, muitas vezes, a programação: e a gente tinha que esperar a madrugada para isso. Trazia para o mesmo sofá Ariano Suassuna, Dercy Gonçalves e Mark Knopfler – o cara do Dire Straits. Seus quadros de pérolas do Enem e de placas com erros de português eram um show de comédia pronto, à parte!
Como eu sou grata por tudo isso… não tem nada que ensine mais do que sentar do lado de uma pessoa e conversar. De ver como ela é de verdade: de tocar a humanidade que está em cada um, e que nos une ao mesmo tempo numa grandeza e mediocridades universais.

Como na melhor entrevista de todos os tempos, que eu prontamente me nego a ver o restante para comparar, quando o próprio Jô termina “sem palavras para descrever a participação”: de Léo, o homem que foi de dependente químico a padre celebridade, e era, talvez ainda mais que Jô, um grande comediante.

Nossa Senhora… ah, credo! É que, no fim… é impossível não ficar grato pelo presente dessa vida!

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