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Qual a relação do racismo com o governo Bolsonaro?

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Inúmeros casos de racismo que veem repercutindo em todo o Brasil, e isso acende um alerta vermelho de retrocesso na reparação histórica brasileira. Apesar de ser discutido em várias esferas sociais, poucos conseguem identificar atitudes e expressões racistas. Então para facilitar tal entendimento trouxe para você, caro leitor, alguns conceitos importantes.

Preconceito: é um julgamento sem conhecimento de causa, ou seja, quando se julga algo sem antes conhecer.

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Discriminação: é diferenciar, ou tratar de modo diferente pessoas por diversos motivos, por exemplo: posição social.

Racismo: é uma forma de preconceito ou discriminação motiva pela cor da pele ou origem étnica.

Ao que se atribui o racismo no Brasil?

No domingo (14/11) um homem se recusou a ser atendido por uma atendente do hipermercado Extra do Setor Marista, em Goiânia. De acordo com testemunhas, o homem disse que  a “mulher era preta e não fazia o trabalho direito”. Após a declaração, ele caminhou em direção a saída do estabelecimento gritando: “ Eu sou racista mesmo, eu não vou ser atendido por ela, eu vou embora”. Uma das testemunhas chamou a polícia e homem foi preso e em seguida liberado após pagamento de fiança.

O que chamou a atenção da nossa equipe foi a tranquilidade em que o individuo se manisfestou racista. Sobre isso, conversamos com a presidente do PSOL Goiás e doutoranda em educação Manu Jacob, que explicou que a manifestação explicita do racismo se dá a “história racista e escravocrata do pais e ao governo Jair Bolsonaro.”  Já o historiador Elby Marinho, atribui o atos a cultura Europeia, predominante no país em seus primeiros anos.

Elby Marinho – Historiador / Foto: Arquivo pessoal

 

“Muitas vezes se houve falar que o brasileiro é fruto da união entre o europeu, índio, africano e criou uma cultura nova, mas não é uma união. Nos temos esses três elementos culturais, mas o dominante é o europeu. Tanto é que a nossa língua, a nossa cultura, nosso sistema de direito, político e educacional são europeus. Então esse racismo vem disso. Lá no século XV, XVI, XII que é quando o Brasil começa a ser ocupado e colonizado por eles, tinha a concepção de que os europeus era um povo superior. Superior porque eram cristãos, porque tinham mais conhecimento cientifico, e também poder militar. Apenas após as grandes guerras mundiais que essa superioridade começou a ser questionada”, explicou o historiador.

Retratação histórica

Segundo Manu Jacob, mesmo com 133 anos de Lei Áurea (abolição da escravidão) há desdobramentos deste período nos dias atuais. E afirma que eles estão em todos os ambientes sociais.

Manu Jacob – presidente do PSOL Goiás / Foto: Arquivo pessoal

“As pessoas que mais utilizam da escola pública são de origem negra, as que mais utilizam do sistema único de saúde também são as pessoas de origem negra. As periferias em sua maioria e composta por pessoas de origem negra, a população carcerária também é em sua maioria de pessoas de origem negra. Isso quer dizer que essas pessoas não tiveram a oportunidade por parte do Estado de se estabeleceram na sociedade brasileira”, afirmou a presidente do PSOL.

Apesar dos inúmeros debates e da reeducação contínua a sociedade brasileira permanece racista.

“Quem são os protagonistas das novelas dos filmes? O padrão de beleza? Quem ocupa os melhores cargos e salários? E quem ocupa os piores cargos e salários? Então sim, a sociedade brasileira é uma sociedade racista. O racismo estrutural é uma coluna dorsal do funcionamento da sociedade brasileira” afirmou.

Reflexo do momento político na sociedade

Existe uma relação do atual momento político mundial e o crescimento da expressão racista.

“A gente vive um momento de maior radicalização política, as pessoas trazem mais concepções de certeza e ouvem menos o outro. Ou seja, pessoas mais cheias de certezas e menos tolerantes. E esse tipo de ambiente encorajam as pessoas mais radicais a se manifestarem, elas ganham mais poder. Eu acredito que houve uma diminuição no número de pessoas racistas, mas aquelas que são e antes ficavam caladas, ou manifestavam para um grupo pequeno, agora ele está mais encorajado a se manifestar. Esse tipo de sociedade em que a gente vive, faz com que apareça mais essas pessoas racistas, elas já existiam, mas agora elas estão mais encorajadas por este contexto que de certa forma, autoriza isso. Quando você tem grandes lideranças no mundo que passam a fazer esse tipo de coisa, as outras pessoas acabam seguindo.” conclui, Elby Marinho.

O ponto principal para avançar em relação ao racismo estrutural é reconhecer que ele existe. Com isso, será mais ‘fácil’ fazer uma reparação histórica. No entanto esta ação deve ser coletiva e contar com os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Porém, segundo a pesquisadora, as características do atual governo não corroboram para o feito.

“ As características desse governo são fascistas. Eu não sou adepta da estória de que vivemos no fascismo, mas ele tem características que flertam com o fascismo. Uma das principais vertentes do fascismo é a supremacia branca. Então, quando o presidente vai a público e fala que deu educação aos filhos dele e que os filhos não se relacionam com uma negra. Quando um chefe de estado fala isso, ele autoriza outras pessoas com esse mesmo tipo de pensamento, mesmo tipo de atitude que estava guardado no armário a sair e falar. Então esses pontos que levam o crescimento de denúncias de injurias raciais e preconceito racial” concluiu.

Relembre alguns casos

Abril

Caso 1: O estudante de publicidade e propaganda, Marcos Paulo Gomes Lima, de 26 anos, fez uma denúncia de racismo após uma mulher postar uma foto dele sem a autorização, na última sexta (9/04), em Goiânia. No post, a pessoa publicou a foto com a legenda: “Rodolfo, corre aqui”. Segundo Marcos, ela fez referência à recente polêmica que ocorreu no Big Brother Brasil envolvendo o cantor, que fez um comentário racista sobre o cabelo de João Luiz, comparando à peruca de um homem das cavernas.

Após a repercussão do caso, a mulher apagou o post e disse que em “momento algum quis ofender alguém” e que foi mal interpretada. Quando percebeu a situação, Marcos usou suas redes sociais para desabafar e disse: “Na hora eu entendi que o conteúdo era racista, mas fiquei assustado. Falei: ‘Caramba, o que está acontecendo?’. Usei as redes sociais para desabafar, e aconteceu esse ‘boom’. Muita repercussão e, infelizmente, por uma situação negativa. Mas eu estou recebendo muito carinho e apoio”.

Caso 2:  Filha da participante do BBB21, Pocah, sofreu ataques racistas na internet após briga da mãe e da participante Juliette Freire ter acontecido dentro da casa, após a formação do paredão no domingo (18). Vitória, de apenas 5 anos de idade, sofreu comentários em posts do Instagram de torcidas dos participantes que ainda estão no reality. A garotinha foi chamada de ”neguinha fedida” e ”cabelo duro” pelos internautas após a discussão que se estendeu até na segunda-feira (19/04).

Julho

O narrador esportivo Romes Xavier e o comentarista Vinícius Silva chamaram o cabelo black power do jogador Celsinho, do Londrina, de “imundo” e “pesado” durante a transmissão do jogo entre Goiás e o time paranaense, no dia 18 de julho, em Goiânia.

“O cabelo deve pesar demais, né Vinícius?”, pergunta Romes Xavier. “Exatamente. Parece mais uma bandeira de feijão a cabeça dele do que um verdadeiro cabelo. Não é porque eu estou perdendo os cabelos que eu vou achar um negócio imundo desse bonito”, responde Vinícius Silva.

Com a repercussão na internet, o Londrina Esporte Clube manifestou repúdio às declarações em uma nota. O clube afirmou que é “inadmissível e lamentável que tais comunicadores, formadores de opinião, propaguem atos de racismo”.

Setembro

Caso 1: No domingo (19/09), a delegada Ana Paula Barroso, diretora adjunta do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV) da Polícia Civil do Ceará (PC-CE) foi barrada ao tentar entrar em uma loja da Zara em um shopping no bairro Edson Queiroz da capital do Ceará.

De acordo com a vítima, um funcionário da loja a teria impedido de permanecer no local por “questões de segurança”. Fabiana até questionou se o motivo seria por estar tomando um sorvete e não houve explicações.

O crime foi investigado pela PC que apresentou no dia 19 de outubro o resultado. Segundo o delegado Sérgio Pereira dos Santos que investiga o caso, a prática de discriminação era comum no local. A loja usava um código sonoro “Zara Zerou”, para que os funcionários observassem supostos “suspeitos”. Geralmente, eram consideradas suspeitas pessoas negras e que usassem roupas simples.

Caso 2: Um policial militar da reserva está sendo investigado pela Polícia Civil de Santa Catarina por racismo. Ele virou alvo da polícia após um vídeo em que ele aparece xingando uma mulher de ”macaca desgraçada” e ameaçar agredi-la, viralizar na internet. O homem é sargento da corporação e está aposentado desde março de 2016, segundo o jornal O Globo.

No vídeo de 47 segundos, o homem aparece em pé dentro de uma casa e gritando com o que aparentar se o filho da mulher que filma a agressão. “Ficava na sua frente, brincando, fingindo. Teu filho é um maldito de um negro desgraçado”, diz o homem.

A mulher então pergunta qual o motivo do ódio do jeito ”moreno” e ele responde sem hesitar, aos gritos: “porque eu tenho ódio, porque eu sou racista, porque eu não suporto negro”

Para completar, ele afirma que tem amigos negros, mas que ele é ”descente, não essa negrada do c*****, que é marrenta” e diz que detesta a mulher porque é marrenta.

A mulher então diz para ele não bater nela. O homem tira o chinelo do pé e se aproxima enquanto segura: Quer ver? Fala de novo. Fala de novo, sua macaca, demônio, desgraçada”, ameaça o racista.

Novembro

Caso 1: Um casal tem a filiação do filho questionada após Marcos Davis, publicar em uma rede social uma foto dele com a mulher e o filho ainda na sala de parto. Isso porque, o bebê tem a pela branca enquanto os pais são negros.Em um dos comentários, um dos internautas sugeriu que o bebê havia sido trocado na maternidade.

Caso 2: Um homem foi preso após não aceitar ser atendido por uma operadora de caixa negra. O caso ocorreu na tarde deste domingo (14/11) no Hipermercado Extra do Setor Marista, em Goiânia.

Segundo testemunhas, o homem disse que a “mulher era preta e não fazia o trabalho direito”. Após a declaração, ele caminhou em direção a saída do estabelecimento gritando: “ Eu sou racista mesmo, eu não vou ser atendido por ela, eu vou embora”.

No entanto, os clientes revoltados com o ocorrido, o impediram de sair do estabelecimento e acionaram a polícia militar (PM). O homem foi detido sob aplausos de clientes e funcionários do hipermercado.